Uma criança pode tapar os ouvidos diante do barulho do liquidificador. Outra não parece perceber quando alguém a chama. Uma recusa determinada roupa porque o tecido incomoda, enquanto outra procura constantemente movimento, pula, gira e parece precisar de estímulos o tempo todo.
Essas diferenças podem chamar a atenção de pais e cuidadores, principalmente quando começam a interferir nas refeições, no sono, nas brincadeiras ou na rotina escolar. Para compreender o que está acontecendo, porém, é preciso olhar para além do comportamento isolado.
O processamento sensorial está relacionado à maneira como o sistema nervoso recebe, organiza e interpreta as informações que chegam pelos sentidos. Quando esse processamento acontece de uma forma que dificulta a participação da criança nas atividades cotidianas, algumas respostas podem aparecer com maior intensidade ou, ao contrário, parecer reduzidas.
O que é processamento sensorial?
Todos os dias, o cérebro recebe uma enorme quantidade de informações: sons, luzes, cheiros, sabores, movimentos, toques e sensações que vêm do próprio corpo.
O processamento sensorial é o conjunto de mecanismos que permite ao sistema nervoso organizar essas informações e produzir respostas adequadas ao contexto. É graças a esse processo que conseguimos, por exemplo, perceber que uma roupa está apertada, identificar de onde vem um som ou ajustar o corpo para não perder o equilíbrio.
Na infância, esse sistema ainda está em desenvolvimento. Por isso, algumas reações fazem parte das experiências próprias dessa fase. Em determinadas crianças, entretanto, as respostas aos estímulos podem ser tão intensas, reduzidas ou inconsistentes que acabam dificultando atividades comuns do dia a dia.
Esse funcionamento pode envolver diferentes sistemas sensoriais, incluindo visão, audição, tato, olfato, paladar, movimento e propriocepção — a percepção da posição e do movimento do próprio corpo.
O que é hipersensibilidade sensorial?
A hipersensibilidade acontece quando a criança apresenta uma resposta aumentada a determinados estímulos. Algo que parece pequeno para outras pessoas pode ser percebido por ela como muito intenso ou desconfortável.
Na rotina, isso pode aparecer de diferentes maneiras:
- incomodar-se muito com sons específicos;
- evitar ambientes barulhentos ou movimentados;
- não gostar de determinadas texturas de roupas;
- recusar alimentos por causa da textura, temperatura, cheiro ou aparência;
- demonstrar desconforto com toques;
- incomodar-se excessivamente com luzes fortes;
- reagir de forma intensa a estímulos que outras crianças parecem tolerar com facilidade.
É importante observar que a hipersensibilidade não significa simplesmente que a criança “não gosta” de alguma coisa. Em alguns casos, a experiência sensorial realmente provoca desconforto e pode desencadear choro, irritação, fuga ou necessidade de interromper a atividade.
O que é hipossensibilidade sensorial?
Na hipossensibilidade, a resposta a determinados estímulos pode ser menor do que o esperado. A criança pode precisar de estímulos mais intensos ou repetidos para percebê-los e responder a eles.
Alguns exemplos incluem:
- não reagir prontamente a sons ou ao próprio nome;
- parecer pouco incomodada com frio, calor ou determinados toques;
- buscar constantemente movimento;
- correr, pular, girar ou balançar o corpo com frequência;
- procurar atividades que ofereçam estímulos físicos mais intensos;
- demonstrar pouca percepção de sinais corporais em algumas situações.
Isso não significa que a criança não tenha sensibilidade. O modo como o sistema nervoso registra e responde à informação pode ser diferente, e essa resposta varia de acordo com o estímulo, o ambiente e o momento.
Hipersensibilidade e hipossensibilidade: qual é a diferença?
De forma simples, a principal diferença está na maneira como a criança responde aos estímulos.
Na hipersensibilidade, determinados estímulos podem ser percebidos de forma intensa e gerar desconforto ou necessidade de evitá-los.
Na hipossensibilidade, a criança pode responder menos a determinados estímulos e buscar experiências sensoriais mais intensas para conseguir percebê-las ou organizá-las.
Uma mesma criança também pode apresentar respostas diferentes dependendo do sentido envolvido. Ela pode, por exemplo, ser muito sensível a sons e, ao mesmo tempo, buscar bastante movimento.
Por isso, não existe uma lista fechada de comportamentos que permita definir o funcionamento sensorial de uma criança apenas pela observação de alguns sinais.
Toda criança que apresenta esses comportamentos têm uma alteração no processamento sensorial?
Não. Uma criança pode passar por fases de maior seletividade alimentar, demonstrar incômodo com um determinado barulho ou procurar mais movimento sem que isso signifique, necessariamente, uma alteração no processamento sensorial.
A frequência, a intensidade, a persistência e, principalmente, a interferência desses comportamentos na vida cotidiana precisam ser consideradas.
Também é importante entender o contexto. Uma criança pode rejeitar uma textura específica porque simplesmente não gosta dela. Outra pode apresentar uma reação muito intensa ao contato com aquela textura e ter dificuldade para permanecer na atividade.
A avaliação profissional ajuda a diferenciar essas situações e a compreender como a criança percebe e responde aos estímulos em diferentes ambientes.
Processamento sensorial tem relação com autismo?
As diferenças no processamento sensorial são frequentes em pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) e fazem parte dos aspectos considerados na compreensão do quadro. E a literatura científica também descreve alterações sensoriais em outras condições do neurodesenvolvimento.
Isso, porém, não significa que uma dificuldade sensorial indique autismo.
Uma criança pode apresentar diferenças no processamento sensorial sem ter TEA. Da mesma forma, crianças autistas possuem perfis sensoriais muito diferentes entre si.
Por isso, comportamentos como evitar barulhos, apresentar seletividade alimentar ou buscar movimento não devem ser usados isoladamente para chegar a uma conclusão diagnóstica. O desenvolvimento precisa ser observado de maneira ampla, considerando comunicação, interação social, comportamento, autonomia e outros aspectos relevantes.
Leia também: Sinais de autismo em crianças: como o tratamento precoce pode transformar o desenvolvimento
Como ajudar uma criança com dificuldades de processamento sensorial?
O primeiro passo é compreender o que aquela resposta representa para a criança.
Em vez de interpretar uma recusa alimentar simplesmente como “manha”, por exemplo, a avaliação pode investigar se existe desconforto relacionado à textura, temperatura, cheiro ou aparência do alimento.
Da mesma forma, uma criança que evita determinado ambiente pode estar reagindo à quantidade de sons, pessoas ou outros estímulos presentes naquele espaço.
Na terapia ocupacional, o profissional pode avaliar o funcionamento sensorial e observar como essas respostas interferem nas atividades cotidianas. A partir dessa compreensão, são definidas estratégias individualizadas, sempre relacionadas às necessidades funcionais da criança.
O objetivo não é fazer com que a criança simplesmente suporte qualquer estímulo. O trabalho terapêutico busca favorecer sua participação, autonomia e conforto nas atividades importantes para sua rotina.
Em alguns casos, outras especialidades também participam desse cuidado. A fonoaudiologia, por exemplo, pode ser importante diante de dificuldades relacionadas à alimentação e comunicação. A psicologia pode contribuir quando as experiências sensoriais estão associadas a questões emocionais ou comportamentais. A integração entre profissionais permite compreender a criança de maneira mais ampla.
Processamento sensorial faz parte do desenvolvimento infantil
Entender o processamento sensorial ajuda a olhar para determinados comportamentos com mais cuidado. Aquilo que parece uma reação exagerada, uma recusa ou uma busca constante por movimento pode estar relacionado à maneira como a criança recebe e organiza as informações do ambiente.
Ao mesmo tempo, nem toda diferença de comportamento representa uma alteração. Cada criança possui características próprias, e o desenvolvimento acontece de forma individual.
Quando as respostas sensoriais começam a dificultar a alimentação, o sono, a higiene, as brincadeiras, a escola ou outras atividades importantes, uma avaliação especializada pode ajudar a esclarecer o que está acontecendo.
Na Pediakinder, esse olhar faz parte de uma proposta de cuidado interdisciplinar, que considera as necessidades e possibilidades de cada criança e busca favorecer sua participação e qualidade de vida.
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